Futuro do trabalho: O que podemos aprender com cooperativas e empresas sociais?
Grande parte da discussão sobre o futuro do trabalho está focada na globalização e na tecnologia, e seus impactos no mercado de trabalho. No entanto, também há um interesse crescente nos modelos de negócios usados por cooperativas e empresas sociais, e em como eles podem contribuir para um futuro melhor do trabalho. A pesquisa da Eurofound mostra que cooperativas e empresas sociais são organizações resilientes, interessadas em criar empregos de qualidade e contribuir positivamente para o mercado de trabalho.
Embora haja mais de 4,7 milhões de funcionários e 9 milhões de produtores-membros nas cooperativas europeias, havia, na melhor das hipóteses, informações limitadas sobre a qualidade do emprego nessas organizações da UE. Em 2018, a Eurofound realizou pesquisas detalhadas para descobrir como é trabalhar nesse tipo de organização. Entrevistamos gestores e trabalhadores em cooperativas e empresas sociais selecionadas. Os trabalhadores foram questionados sobre o equilíbrio entre compromissos de trabalho e família, satisfação com o salário, segurança no emprego e outros aspectos de suas vidas profissionais.
Flexibilidade é importante
Descobrimos que a grande maioria dos entrevistados em cooperativas e empresas sociais sente que suas horas de trabalho se encaixam com a família e outros compromissos fora do trabalho. Comparadas a outras organizações, elas consideram que suas horas eram 'melhores' ou 'muito melhores' e poucas disseram que eram 'piores' ou 'muito piores'. Em geral, as organizações ofereciam aos seus funcionários a flexibilidade para lidar com questões pessoais e participar de eventos familiares, com alguns gestores especificamente enquadrando boas práticas de equilíbrio entre vida pessoal e profissional como uma forma de atrair os trabalhadores mais adequados e talentosos para sua organização.
Às vezes é preciso ficar mais tempo, mas geralmente não há necessidade de fazer hora extra... Se for esse o caso, pode vir no dia seguinte, sem problema... Também posso mudar a ordem das minhas tarefas.
— Trabalhador polonês de empresas sociais
As cooperativas e empresas sociais pesquisadas fizeram bom uso das novas tecnologias para facilitar formas flexíveis de trabalho, como permitir que os funcionários trabalhassem remotamente.
Pagamento justo
Equilibrar trabalho e vida pessoal é importante, mas e quanto ao salário? Esse é um fator chave para a maioria de nós antes de tomar uma decisão sobre um novo emprego. Perguntamos aos trabalhadores cooperativos e de empresas sociais sobre seu salário, e a maioria deles nos disse que eram bem pagos em comparação com outras organizações. No entanto, isso depende muito do tipo de organização para a qual trabalham e onde vivem. Na Itália, por exemplo, a maioria dos trabalhadores acreditava que não era remunerada adequadamente. Trabalhadores em cooperativas estavam mais satisfeitos com seu salário do que aqueles em empresas sociais.
A política da organização é oferecer salários comparáveis aos de outras organizações e alinhados ao acordo coletivo setorial. Existe um esquema de participação nos lucros que visa pagar um salário mensal extra a cada ano e dois dias extras de licença por ano.
— Trabalhador cooperativo sueco
Parece que a natureza do trabalho deles, independência e autonomia sobre as tarefas fazem diferença para muitos trabalhadores, o que pode compensar limitações salariais.
O lado positivo é que o trabalho é interessante, e eu consigo propor e gerenciar as ideias em que acredito.
— Trabalhador cooperativo social italiano
A maioria das organizações pesquisadas paga bônus ou dividendos e incentivos de desempenho além do salário básico, enquanto outras oferecem recompensas não financeiras – como vouchers de viagem ou benefícios médicos adicionais. Na maioria das organizações, as diferenças salariais não eram baseadas em proporções entre gestores e trabalhadores, mas sim do papel de trabalho. Em algumas, o salário mais alto era cerca de 2,5 a 3 vezes maior que o menor e não podia ser maior. Outras organizações concordaram entre seus membros que todos teriam o mesmo salário.
Fornecer segurança
De acordo com os valores dessas organizações, a segurança no emprego era muito bem avaliada pelos trabalhadores. Para muitos deles, essa segurança no emprego depende do sucesso comercial de sua organização. Eles também conseguem equilibrar empregos e salários, especialmente em tempos adversos. É notável que, durante a crise financeira, muitas cooperativas e empresas sociais enfrentaram a difícil escolha de demitir pessoas ou reduzir salários ou tempo de trabalho; decisões foram acordadas com os trabalhadores e frequentemente tomadas em benefício daqueles mais vulneráveis.
Os gerentes nos deram todas as informações... Organizamos uma assembleia e decidimos, voluntariamente, aceitar os cortes salariais... porque não queríamos que ninguém fosse demitido... Os gerentes também decidiram ajustar seu orçamento e seus ganhos.
— Cooperativa espanhola de serviços de saúde
O trabalho da Eurofound mostra que cooperativas e empresas sociais podem, e de fato, entregam resultados positivos no emprego, assim como empregos de qualidade. Elas fazem isso incorporando práticas positivas de recursos humanos que agora são cada vez mais defendidas por muitas empresas tradicionais. O surgimento da economia de plataforma traz oportunidades, mas também cria incertezas. Cooperativas e empresas sociais estão entrando nesse espaço com soluções alternativas e sustentáveis. Com raízes fortes nas comunidades locais e em suas necessidades, podem contribuir para o desenvolvimento econômico local e regional. Em muitos aspectos, cooperativas e empresas sociais incorporam as aspirações políticas da Europa 2020 para crescimento sustentável e inclusivo, bem como um trabalho justo identificado no Pilar Europeu dos Direitos Sociais.
Se o Pilar Europeu nos der uma visão da sociedade que teríamos na Europa, cooperativas e empresas sociais nos oferecem uma forma alternativa, complementar e positiva de produzir na economia.
Stavroula Demetriades
Senior research managerStavroula Demetriades é gestora sénior de investigação na unidade de Emprego da Eurofound. É responsável pela investigação nos domínios da transição ecológica e justa, do diálogo social, das práticas de gestão, da inovação e do trabalho híbrido. Ela é doutora em Sociologia pela Universidade de Aalborg, Dinamarca. Ela também tem mestrado em Políticas Econômicas pelo Trinity College Dublin e mestrado em Desenvolvimento Regional pela Universidade de Atenas. Antes de ingressar na Eurofound em 1999, trabalhou em institutos de investigação, em diferentes cargos nos setores público e privado, e realizou estudos organizacionais e socioeconómicos. Os seus principais interesses de investigação incluem a transição verde e justa, a gestão de recursos humanos, os sistemas de trabalho, a inovação, o emprego e o diálogo social. Ela também é professora adjunta na Escola de Negócios da University College Dublin.
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